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Por que alguns talentos do LOL não chegam ao topo? Dionrray aponta falhas na formação de jogadores no Brasil

09/10/2026 12:53
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Por que alguns talentos do LOL não chegam ao topo? Dionrray aponta falhas na formação de jogadores no Brasil

O Brasil tem jogadores talentosos de League of Legends, mas será que possui estrutura suficiente para transformá-los em profissionais de alto nível? Essa é uma das principais questões levantadas por João Pedro, conhecido no cenário competitivo como Dionrray, treinador com dez anos de experiência e passagem por equipes do Tier 1 e Tier 2.

Em entrevista ao Olhar Digital, Dionrray, que trabalhou por quase cinco anos na paiN Gaming, falou sobre a formação de jovens talentos, os desafios enfrentados por treinadores e a dificuldade de desenvolver projetos de longo prazo nos e-sports brasileiros.

A discussão é especialmente importante para competições como o CELOL, organizado pela Liga GG, que reúne equipes e jogadores do Tier 3, uma das portas de entrada para quem deseja construir uma carreira profissional.

Embora muitos atletas se destaquem nessas competições, a transição para níveis superiores nem sempre acontece como esperado. E, na avaliação de Dionrray, a responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre os jogadores.

O problema não está apenas nos jogadores

Um dos desafios do cenário brasileiro é entender por que atletas que apresentam excelentes resultados no Tier 3 encontram dificuldades quando chegam ao Tier 2 ou ao Tier 1.

Para Dionrray, essa transição expõe problemas que vão além do desempenho individual.

“Eu acho que é mais uma questão estrutural mesmo, de sistema”, afirmou.

Segundo o treinador, o cenário brasileiro ainda enfrenta dificuldades para oferecer o acompanhamento necessário aos jogadores que estão começando a carreira. Entre os problemas mencionados estão a falta de suporte psicológico, de treinadores individuais e de equipes com uma identidade de jogo consolidada.

Ele observa que organizações com menos recursos frequentemente recorrem a jogadores novatos, mas nem sempre possuem a estrutura necessária para desenvolvê-los.

“É muito mais sobre os times não estarem preparados, as organizações não estarem preparadas do que os jogadores em si”, avaliou.

Na prática, isso significa que um jogador pode apresentar excelente desempenho individual e, ainda assim, enfrentar dificuldades em uma equipe sem planejamento consistente, estabilidade no corpo técnico ou uma estratégia coletiva bem definida.

Dionrray compara esse cenário ao de organizações internacionais mais estruturadas, nas quais a entrada de um novo atleta pode acontecer dentro de um sistema de jogo já estabelecido, facilitando sua adaptação.

Por que o Brasil investe tão pouco na formação de talentos?

Imagem: Globo Esporte/ Reprodução

A falta de investimento na base também foi um dos pontos centrais da entrevista.

Para Dionrray, muitas organizações brasileiras reconhecem a importância de desenvolver novos talentos, mas encontram dificuldades para transformar esse reconhecimento em projetos concretos e constantes.

O principal obstáculo, segundo ele, é o imediatismo.

Formar um jogador exige tempo, acompanhamento e recursos financeiros. Os resultados, porém, podem aparecer somente depois de várias temporadas.

“Só que ninguém quer colher o fruto em dois anos, as pessoas preferem não colher fruto nenhum do que ter que colher em dois anos”, criticou.

Na avaliação do treinador, a resistência a projetos de longo prazo prejudica não apenas os jogadores, mas também a formação de novos profissionais para as comissões técnicas.

Equipes de base podem funcionar como espaços de desenvolvimento para treinadores, analistas e outros profissionais que, futuramente, poderiam integrar organizações de níveis superiores.

Dionrray também levantou a possibilidade de fortalecer competições regionais como uma alternativa para ampliar as oportunidades em um país de dimensões continentais.

O que diferencia um bom jogador de um futuro profissional?

Se a habilidade individual não é suficiente para garantir uma carreira, o que um treinador procura em um jovem talento?

A resposta de Dionrray vai além das estatísticas e das jogadas impressionantes.

Segundo ele, quando jogadores alcançam os níveis mais altos do competitivo, suas habilidades mecânicas frequentemente já são semelhantes. Por isso, outros aspectos passam a ganhar importância.

Entre eles estão a capacidade de trabalhar em equipe, ouvir críticas, oferecer feedback, comunicar-se com clareza e demonstrar iniciativa.

Essas características são conhecidas como soft skills, expressão utilizada para descrever habilidades comportamentais e interpessoais.

Dionrray explica que, ao observar jogadores novatos, procura identificar o quanto eles já desenvolveram essas competências.

Afinal, conhecimento de jogo e execução técnica podem ser aprimorados durante os treinamentos, enquanto mudanças de comportamento e de hábitos podem exigir um trabalho mais complexo.

Outro ponto destacado é a disposição para buscar oportunidades.

O treinador reconhece que indicações, contatos, sorte e circunstâncias também influenciam a trajetória de um atleta. Entretanto, defende que os jogadores precisam concentrar seus esforços naquilo que conseguem controlar: desempenho, comportamento, comunicação e dedicação.

Isso não garante uma vaga no Tier 2 ou Tier 1, mas pode aumentar as possibilidades de crescimento profissional.

Da Liga GG ao alto rendimento: Dionrray acompanha talentos do CELOL

Imagem: Leaguepedia/ Reprodução

A relação de Dionrray com a formação de novos jogadores não se limita às equipes profissionais pelas quais passou.

Durante a entrevista, ele revelou que também realiza trabalhos individuais com atletas que disputam competições de base, incluindo jogadores presentes no CELOL, da Liga GG.

Entre os exemplos citados está a emBRAZA! Esports, equipe com a qual mantém uma relação próxima e cujos jogadores já participaram de sessões de treinamento individuais e coletivas conduzidas por ele.

O treinador também mencionou Dark Harvest, jogador da LOS Academy, como um dos atletas que procuraram seu acompanhamento.

Para Dionrray, essa iniciativa representa uma característica importante dos jovens que desejam evoluir: a disposição para buscar conhecimento mesmo quando não possuem uma estrutura profissional completa à disposição.

Ele destacou que os jogadores da emBRAZA! contam com uma organização e um treinador experiente, fatores que contribuem para a construção de um ambiente competitivo mais estruturado.

O exemplo ajuda a compreender a importância de competições como o CELOL. Além de oferecerem experiência em partidas organizadas, elas permitem que jogadores desenvolvam habilidades coletivas e ganhem visibilidade dentro do cenário.

Mas o desempenho dentro do jogo é apenas uma parte dessa preparação.

Ser pro player é mais do que jogar profissionalmente

Uma das diferenças entre um jogador habilidoso e um atleta profissional está na maneira como ele encara a própria carreira.

Dionrray acredita que muitos jogadores já compreendem que os e-sports são uma profissão. O desafio, segundo ele, é perceber que não se trata de um trabalho convencional.

A rotina de um atleta envolve disciplina, preparação física e mental, comunicação, responsabilidade com a própria imagem e capacidade de lidar com a exposição pública.

Essa exigência se torna ainda maior quando o jogador deixa as competições online e passa a disputar partidas presenciais diante de uma plateia.

O treinador explica que o nervosismo nas primeiras apresentações é natural e pode afetar o desempenho. Por isso, considera importante preparar os atletas para essas situações, inclusive com treinamentos que simulem as condições de uma partida no palco.

Também cabe ao treinador compreender que cada jogador reage de maneira diferente à pressão.

Para Dionrray, o objetivo não é eliminar completamente o nervosismo, mas ajudar o atleta a reconhecer essa experiência e confiar na preparação realizada.

Treinadores também precisam aprender a lidar com pessoas

A formação de talentos não depende apenas da dedicação dos jogadores. O trabalho dos treinadores também exerce influência sobre o desenvolvimento profissional e pessoal de quem está começando.

Dionrray estima que sua atuação como treinador se divide aproximadamente entre questões técnicas e gestão de pessoas, embora essa proporção varie conforme a equipe e o projeto.

A responsabilidade é especialmente significativa quando se trabalha com jogadores novatos.

Segundo ele, as primeiras experiências competitivas podem influenciar os hábitos que um atleta levará para o restante da carreira.

Por isso, considera que trabalhar com jovens talentos representa uma responsabilidade maior do que lidar com profissionais já consolidados.

O treinador também chamou atenção para a necessidade de estabelecer limites na relação entre jogadores e comissão técnica.

Embora seja natural criar vínculos durante uma rotina intensa de treinamentos, ele defende que o relacionamento profissional precisa ser preservado.

A discussão se estende à própria valorização dos treinadores de base. Dionrray criticou organizações que priorizam a contratação de profissionais dispostos a receber salários muito baixos ou trabalhar sem remuneração, em vez de investir na experiência e na qualificação de suas equipes técnicas.

O futuro do competitivo brasileiro depende da base

A entrevista com Dionrray revela um desafio que ultrapassa a busca por jogadores mecanicamente talentosos.

Para que o cenário brasileiro consiga desenvolver novos profissionais, é necessário criar ambientes capazes de preparar atletas para as exigências do alto rendimento.

Isso envolve investimento, estabilidade, acompanhamento individual, treinadores qualificados e oportunidades reais de crescimento.

Competições como o CELOL, da Liga GG, fazem parte desse caminho ao oferecer espaço para que novos jogadores adquiram experiência competitiva e sejam observados por profissionais do cenário.

Mas a existência de talentos e campeonatos, por si só, não resolve os obstáculos da profissionalização.

A reflexão deixada por Dionrray é que o desenvolvimento dos e-sports brasileiros depende não apenas de descobrir quem joga bem, mas também de construir estruturas capazes de transformar esse potencial em carreiras.

Afinal, revelar talentos é apenas o primeiro passo. O desafio seguinte é oferecer condições para que eles continuem evoluindo.

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